sábado, 27 de janeiro de 2007

Todas as prendas que me deste, um dia,
guardei-as, meu encanto, quase a medo,
e quando a noite espreita o pôr-do-sol,
eu vou falar com elas em segredo ...

E falo-lhes d'amores e de ilusões,
choro e rio com elas, mansamente...
pouco a pouco o perfume do outrora
flutua em volta delas, docemente ...

Pelo copinho de cristal e prata
bebo uma saudade estranha e vaga,
uma saudade imensa e infinita
que, triste, me deslumbra e m'embriaga.

O espelho de prata cinzelada,
a doce oferta que eu amava tanto,
que reflectia outrora tantos risos,
e agora reflecte apenas pranto,
e o colar de pedras preciosas,
de lágrimas e estrelas constelado,
resumem em seus brilhos o que tenho
de vago e de feliz no meu passado...

Mas de todas as prendas, a mais rara,
aquela que mals fala à fantasia,
são as folhas daquela rosa [vermelha]
que a meus pés desfolhaste, aquele dia...


Florbela Espanca

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