quinta-feira, 17 de maio de 2007

Mais um...

«Que vergonha, agora, quando penso nos disparates confessados, nas juras de amor sôfregas, remoídas na solidão do quarto, as paredes a fazerem-te as vezes. Que vergonha, tantos despudor e promessas aos santinhos da minha devoção, para que te pusessem no meu caminho, para que não pudesses viver sem mim. Que tolice, tantos impropérios gritados em silêncio, as febres, a fome, o choro contido nos entremeios dos lençóis. Eu, amarrotada, como os lençóis. Que perda de tempo, a pedinchice desnecessária, a choraminguice, o beicinho inútil. A paixão é uma cegueira danada, uma solidão desmiolada, egoísta, absorta, desligada. A paixão afugenta o bom-senso, a razão e a bondade das coisas, de todas as coisas. Enquanto ilumina o outro como um vitral de igreja e o refracta para todos os lados, num bailado colorido, acinzenta e esbate as formas do que é importante. É injusta, mentirosa e supérflua. Mas, um dia, estranhamente, quando menos esperamos, o nosso eu adormecido, o capaz de amar mesmo algures alguém e muito, desperta do sono envenenado como a princesa de uma fábula; sacode dos ombros os restos do seu sonho moribundo e acorda para a vida verdadeira, para os caminhos sinuosos do Amor de Facto, aquele que sobrevive nos meandros entediantes das afecções diárias. A paixão é um rebate falso, uma promessa de nada, uma perda de tempo e de saúde, dez passos à retaguarda, cinco à caranguejo. Por isso, regozija-te: estou finalmente acesa para a vida e alegremente te digo, nunca saberás o que perdeste.»
Novamente... em umamoratrevido.blogspot.com
[Reli (mais uma vez o texto) e cheguei à conclusão que, talvez, não tivesse escrito estas palavras assim... Algumas, mas não todas... Até porque nunca senti vergonha dos meus sentimentos, nem de os demonstrar.]

2 comentários:

Anónimo disse...

M,
Como fiquei contente por a voltar a ler.
Mesmo o pouco que está entre parentesis, reflecte a sua firmeza, a sua determinação e a forma como encara o que faz.
Os meus 46 anos ensinaram-me a que nunca nos devemos arrepender do que fizemos, porque foi certamente o que mais queríamos naquele momento. Não nos devemos arrepender, também, do que não fizemos, porque se tal aconteceu, foi porque não queríamos de todo fazê-lo.
Hoje voltei ao tecto, na esperança de encontrar as traves já reparadas...
Como as obras continuam, resolvi olhar para dentro de si e tive a sorte de a encontrar.
A caminhada depois da queda é mais dura, mas encoraja-nos para encontrarmos a estrada com melhor piso, para não voltarmos a cair.
A M é uma grande Mulher.
Se precisar de mim para encontrar a melhor estrada, estarei cá, SEMPRE.
Força e um grande beijo
CA

Anónimo disse...

Há quedas que deixam demasiadas feridas e, por isso, exigem (mais) tempo de cicatrização... É o caso!

Sempre tentei viver de acordo com aquilo que acho o correcto, de uma forma transparente e o mais sincera possível... Talvez por isso, quando caio, as feridas seja tão graves e profundas.

Confesso a minha incapacidade de me ver como diz que sou, ou me vê... Mas fico feliz por pensar tantas coisas boas de mim.
Espero ser merecedora de tais "elogios".

Obrigada...